Saúde Infantil

    Refluxo em crianças: tosse crônica e sintomas que confundem

    DR

    Dr. Rafael Santos

    Pediatra — CRM 45678

    21 Abr 20266 min de leitura
    Revisado por Dr. Rafael Santos Pediatra — CRM 45678
    Refluxo em crianças: tosse crônica e sintomas que confundem

    O refluxo gastroesofágico é uma causa frequentemente subestimada de tosse crônica em crianças. Enquanto os pais associam a tosse persistente a infecções, asma ou alergias, o refluxo — especialmente o "refluxo silencioso" sem azia evidente — pode ser responsável por semanas ou meses de tosse sem diagnóstico. O refluxo gastroesofágico causa tosse por dois mecanismos: microaspiração do conteúdo gástrico para a via aérea e reflexo vagal que estimula a tosse como resposta protetora.

    O que é o refluxo gastroesofágico (DRGE):

    O refluxo gastroesofágico (DRGE) ocorre quando o conteúdo do estômago sobe para o esôfago — e às vezes para a faringe, laringe ou traqueia. Em bebês, é fisiológico até os 12-18 meses (o esfíncter esofágico inferior ainda está imaturo). Quando causa sintomas, dano tecidual ou complicações respiratórias, é chamado de Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE).

    O refluxo causa tosse crônica:

    O refluxo causa tosse crônica em crianças e é uma das três causas mais comuns de tosse persistente (junto com asma e rinossinusite por gotejamento pós-nasal). A tosse do refluxo tem características próprias: é seca ou produtiva, piora após refeições ou ao deitar, pode ser acompanhada de rouquidão matinal, pigarro frequente e sensação de "nó na garganta". Frequentemente não há azia (daí o termo "refluxo silencioso").

    Sintomas do refluxo em crianças por faixa etária:

    Lactentes (0-12 meses):

    • Regurgitação frequente (≥2x/dia) com choro durante ou após mamar
    • Arqueamento das costas (sinal de Sandifer)
    • Recusa alimentar, ganho de peso insuficiente
    • Tosse recorrente, sibilância, apneia

    Crianças pequenas (1-5 anos):

    • Vômitos recorrentes, dor abdominal
    • Recusa alimentar seletiva, sensação de engasgo
    • Tosse noturna, rouquidão matinal

    Crianças maiores e adolescentes (>5 anos):

    • Azia clássica (queimação retroesternal), regurgitação ácida
    • Tosse crônica, pigarro frequente
    • Dor epigástrica, náusea

    Diagnóstico do refluxo:

    O diagnóstico é primariamente clínico. Exames complementares quando indicados:

    • pHmetria esofágica de 24h (padrão-ouro): mede frequência e duração dos episódios ácidos
    • Impedanciometria + pHmetria: detecta refluxo não-ácido (mais comum em crianças)
    • Endoscopia digestiva alta: indicada se suspeita de esofagite ou doença celíaca
    • Seriografia esofagogastroduodenal: útil para avaliar anatomia (excluir malformações)

    Tratamento do refluxo em crianças:

    Medidas posturais e dietéticas:

    • Elevação da cabeceira 30-45° ao dormir (apenas em bebês com supervisão)
    • Refeições menores e mais frequentes
    • Evitar deitar logo após as refeições (esperar 2-3 horas)
    • Nos bebês: espessar a fórmula ou leite materno (com orientação nutricional)
    • Evitar alimentos desencadeantes em crianças maiores: chocolate, citrus, tomate, frituras, menta, cafeína

    Farmacoterapia:

    • Inibidores de bomba de prótons (IBP): omeprazol, lansoprazol — tratamento de escolha para DRGE com esofagite ou sintomas persistentes. Duração habitual: 4-8 semanas, com reavaliação.
    • Antiácidos: uso pontual para alívio de sintomas em maiores de 1 ano.
    • Procinéticos (domperidona, metoclopramida): uso cauteloso por efeitos adversos; reservados para casos selecionados.

    Quando a tosse não melhora:

    Se a tosse persistir após tratamento adequado para refluxo, investigar: asma infantil (principal diagnóstico diferencial), coqueluche (tosse em acessos com guincho), crupe (tosse em latido), alergias respiratórias e corpo estranho aspirado. A pediatra pode solicitar espirometria, teste de broncoprovocação ou encaminhar ao pneumologista pediátrico.

    Teleconsulta para refluxo pediátrico:

    A teleconsulta com pediatra é adequada para avaliação inicial do refluxo em crianças sem sinais de alarme. Consulte pediatra pela Pro Life — orientação rápida sobre manejo e quando solicitar exames.

    Sinais de alarme que exigem avaliação presencial urgente:

    • Perda de peso inexplicada ou falha no crescimento
    • Disfagia (dificuldade de engolir)
    • Hematemese (vômito com sangue) ou melena (fezes escuras)
    • Apneia recorrente em lactentes
    • Esofagite grave suspeita

    Referências:

    • Sociedade Brasileira de Pediatria. Refluxo Gastroesofágico na Infância. 2022.
    • ESPGHAN/NASPGHAN. Pediatric Gastroesophageal Reflux Clinical Practice Guidelines. 2018.

    Aviso: Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Em caso de sintomas, procure um profissional de saúde.

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