Refluxo em crianças: tosse crônica e sintomas que confundem
Dr. Rafael Santos
Pediatra — CRM 45678
O refluxo gastroesofágico é uma causa frequentemente subestimada de tosse crônica em crianças. Enquanto os pais associam a tosse persistente a infecções, asma ou alergias, o refluxo — especialmente o "refluxo silencioso" sem azia evidente — pode ser responsável por semanas ou meses de tosse sem diagnóstico. O refluxo gastroesofágico causa tosse por dois mecanismos: microaspiração do conteúdo gástrico para a via aérea e reflexo vagal que estimula a tosse como resposta protetora.
O que é o refluxo gastroesofágico (DRGE):
O refluxo gastroesofágico (DRGE) ocorre quando o conteúdo do estômago sobe para o esôfago — e às vezes para a faringe, laringe ou traqueia. Em bebês, é fisiológico até os 12-18 meses (o esfíncter esofágico inferior ainda está imaturo). Quando causa sintomas, dano tecidual ou complicações respiratórias, é chamado de Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE).
O refluxo causa tosse crônica:
O refluxo causa tosse crônica em crianças e é uma das três causas mais comuns de tosse persistente (junto com asma e rinossinusite por gotejamento pós-nasal). A tosse do refluxo tem características próprias: é seca ou produtiva, piora após refeições ou ao deitar, pode ser acompanhada de rouquidão matinal, pigarro frequente e sensação de "nó na garganta". Frequentemente não há azia (daí o termo "refluxo silencioso").
Sintomas do refluxo em crianças por faixa etária:
Lactentes (0-12 meses):
- Regurgitação frequente (≥2x/dia) com choro durante ou após mamar
- Arqueamento das costas (sinal de Sandifer)
- Recusa alimentar, ganho de peso insuficiente
- Tosse recorrente, sibilância, apneia
Crianças pequenas (1-5 anos):
- Vômitos recorrentes, dor abdominal
- Recusa alimentar seletiva, sensação de engasgo
- Tosse noturna, rouquidão matinal
Crianças maiores e adolescentes (>5 anos):
- Azia clássica (queimação retroesternal), regurgitação ácida
- Tosse crônica, pigarro frequente
- Dor epigástrica, náusea
Diagnóstico do refluxo:
O diagnóstico é primariamente clínico. Exames complementares quando indicados:
- pHmetria esofágica de 24h (padrão-ouro): mede frequência e duração dos episódios ácidos
- Impedanciometria + pHmetria: detecta refluxo não-ácido (mais comum em crianças)
- Endoscopia digestiva alta: indicada se suspeita de esofagite ou doença celíaca
- Seriografia esofagogastroduodenal: útil para avaliar anatomia (excluir malformações)
Tratamento do refluxo em crianças:
Medidas posturais e dietéticas:
- Elevação da cabeceira 30-45° ao dormir (apenas em bebês com supervisão)
- Refeições menores e mais frequentes
- Evitar deitar logo após as refeições (esperar 2-3 horas)
- Nos bebês: espessar a fórmula ou leite materno (com orientação nutricional)
- Evitar alimentos desencadeantes em crianças maiores: chocolate, citrus, tomate, frituras, menta, cafeína
Farmacoterapia:
- Inibidores de bomba de prótons (IBP): omeprazol, lansoprazol — tratamento de escolha para DRGE com esofagite ou sintomas persistentes. Duração habitual: 4-8 semanas, com reavaliação.
- Antiácidos: uso pontual para alívio de sintomas em maiores de 1 ano.
- Procinéticos (domperidona, metoclopramida): uso cauteloso por efeitos adversos; reservados para casos selecionados.
Quando a tosse não melhora:
Se a tosse persistir após tratamento adequado para refluxo, investigar: asma infantil (principal diagnóstico diferencial), coqueluche (tosse em acessos com guincho), crupe (tosse em latido), alergias respiratórias e corpo estranho aspirado. A pediatra pode solicitar espirometria, teste de broncoprovocação ou encaminhar ao pneumologista pediátrico.
Teleconsulta para refluxo pediátrico:
A teleconsulta com pediatra é adequada para avaliação inicial do refluxo em crianças sem sinais de alarme. Consulte pediatra pela Pro Life — orientação rápida sobre manejo e quando solicitar exames.
Sinais de alarme que exigem avaliação presencial urgente:
- Perda de peso inexplicada ou falha no crescimento
- Disfagia (dificuldade de engolir)
- Hematemese (vômito com sangue) ou melena (fezes escuras)
- Apneia recorrente em lactentes
- Esofagite grave suspeita
Referências:
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Refluxo Gastroesofágico na Infância. 2022.
- ESPGHAN/NASPGHAN. Pediatric Gastroesophageal Reflux Clinical Practice Guidelines. 2018.
Aviso: Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Em caso de sintomas, procure um profissional de saúde.