Faringoamigdalite estreptocócica: diagnóstico e antibiótico certo
Dr. Rafael Santos
Pediatra — CRM 45678
A faringoamigdalite estreptocócica (ou "strep throat") é uma das infecções bacterianas mais comuns na infância — e uma das poucas em que o diagnóstico preciso e o tratamento com antibiótico são críticos não apenas para a melhora dos sintomas, mas para prevenir uma complicação grave: a febre reumática.
O estreptococo causa faringoamigdalite:
O Streptococcus pyogenes (estreptococo beta-hemolítico do grupo A — EBHGA) é o agente bacteriano mais importante da faringoamigdalite. É responsável por 15-30% das faringoamigdalites em crianças e 5-10% em adultos — a maioria das faringites é viral e não requer antibiótico.
Febre causa faringoamigdalite: a faringite bacteriana geralmente cursa com febre alta (38,5-40°C) de início súbito, ao contrário das faringites virais que têm evolução mais gradual.
Sintomas da faringoamigdalite estreptocócica:
Sugestivos de origem bacteriana (estreptocócica):
- Febre alta súbita (≥38,5°C)
- Dor de garganta intensa
- Exsudato (pus) nas amígdalas — placas brancas ou amareladas
- Linfonodos cervicais anteriores aumentados e dolorosos
- Ausência de tosse, coriza e conjuntivite (sinais virais — sua presença sugere vírus, não bactéria)
- Petéquias no palato (pontilhado vermelho no céu da boca)
- Escarlatina (rash maculopapular fino, tipo lixa) — confirma estreptococo
Sugestivos de faringite viral:
- Tosse, coriza, conjuntivite, rouquidão
- Vesículas ou úlceras na garganta (herpangina, HSV)
- Evolução gradual com sintomas de resfriado
Score de Centor/McIsaac — predição clínica:
Para decidir se testa ou trata sem teste:
- Febre > 38°C: +1 ponto
- Exsudato amigdaliano: +1 ponto
- Linfonodomegalia cervical anterior dolorosa: +1 ponto
- Ausência de tosse: +1 ponto
- Idade 3-14 anos: +1 ponto
Score ≥ 3: alta probabilidade de estreptococo → testar (swab de garganta ou teste rápido) ou tratar empiricamente. Score ≤ 1: provavelmente viral → não tratar com antibiótico.
Diagnóstico:
- Teste rápido de antígeno estreptocócico (RADT): resultado em 5-10 minutos, especificidade > 95%. Disponível em prontos-socorros e laboratórios. Negativo em criança com score alto deve ser confirmado por cultura.
- Cultura de swab de orofaringe: padrão-ouro, resultado em 24-48h. Indicada quando teste rápido negativo com alta suspeita clínica.
Tratamento:
A faringoamigdalite estreptocócica é tratada com antibióticos — especificamente penicilina/amoxicilina, pois o estreptococo ainda é universalmente sensível (sem resistência descrita até hoje).
Antibiótico de escolha:
- Amoxicilina: 50 mg/kg/dia (máx. 500 mg) 2-3x/dia por 10 dias — 10 dias é essencial para erradicação completa e prevenção de febre reumática
- Penicilina V oral: alternativa, mas amoxicilina tem sabor mais palatável para crianças
- Penicilina G benzatina IM: dose única — garante adesão, mas mais dolorosa. Indicada quando há preocupação com não adesão.
Alergia a penicilina: azitromicina por 5 dias ou cefalosporinas de 1ª geração.
Por que 10 dias importam:
A duração de 10 dias NÃO é para o paciente se sentir melhor (a melhora é em 2-3 dias). É para erradicar completamente o estreptococo da orofaringe e prevenir febre reumática. Cursos menores (5-7 dias) têm taxa de erradicação menor.
A faringoamigdalite estreptocócica causa febre reumática:
A faringoamigdalite estreptocócica não tratada causa febre reumática — complicação autoimune que acomete coração (cardite reumática), articulações, pele e sistema nervoso. A cardite reumática é a principal causa de doença cardíaca adquirida em crianças e jovens em países em desenvolvimento. O tratamento com antibiótico por 10 dias previne praticamente 100% dos casos de febre reumática.
Teleconsulta para faringoamigdalite:
A teleconsulta com pediatra ou clínico geral é adequada para avaliação de dor de garganta com febre em crianças e adultos. O médico avalia o score clínico, solicita teste rápido se necessário, e prescreve o antibiótico correto. Consulte médico pela Pro Life — disponível 24h.
Quando ir presencialmente:
- Dificuldade para abrir a boca (trismo) ou desvio da úvula (suspeita de abscesso periamigdaliano)
- Dificuldade de deglutição grave com sialorreia
- Dificuldade respiratória
- Amígdalas extremamente aumentadas obstruindo a via aérea
Referências:
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Faringoamigdalite — Guia Prático. 2022.
- Shulman ST et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis and Management of Group A Streptococcal Pharyngitis. Clin Infect Dis. 2012.
Aviso: Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Em caso de sintomas, procure um profissional de saúde.