Enxaqueca: causas, gatilhos e como prevenir as crises
Dr. Carlos Mendes
Neurologista — CRM 23456
A enxaqueca é uma das condições neurológicas mais incapacitantes do mundo, afetando cerca de 15% da população brasileira — aproximadamente 32 milhões de pessoas. Ao contrário da cefaleia tensional comum, a enxaqueca é uma doença neurológica crônica com crises recorrentes de dor intensa, geralmente unilateral, pulsátil, que pode durar de 4 a 72 horas. Neste artigo, você vai entender as causas, os principais gatilhos, os tratamentos disponíveis e como a telemedicina pode ajudar no seu acompanhamento.
O que é enxaqueca e por que ela é diferente de uma dor de cabeça comum:
A enxaqueca não é "apenas uma dor de cabeça forte". É uma disfunção neurológica que envolve ativação anormal do trigêmeo e liberação de neuropeptídeos inflamatórios nos vasos meníngeos. As crises frequentemente incluem náuseas, vômitos, fotofobia (sensibilidade à luz) e fonofobia (sensibilidade a sons), tornando atividades cotidianas impossíveis durante os episódios.
Aproximadamente 25 a 30% dos pacientes com enxaqueca experimentam aura — fenômenos neurológicos reversíveis que precedem a dor, como distúrbios visuais (escotomas cintilantes), formigamentos, fraqueza ou alterações na fala, com duração de 20 a 60 minutos.
Causas e mecanismos da enxaqueca:
A enxaqueca tem forte componente genético — se um dos pais tem a doença, o filho tem 50% de risco; se ambos têm, o risco sobe para 75%. Do ponto de vista fisiopatológico, a enxaqueca envolve hiperexcitabilidade cortical, ativação do sistema trigeminovascular e oscilações nos níveis de serotonina.
Desequilíbrios hormonais explicam por que a enxaqueca é três vezes mais comum em mulheres: o estrogênio modula os receptores de serotonina e influencia diretamente o limiar de dor do trigêmeo. Muitas mulheres relatam piora das crises nos dias que antecedem a menstruação (enxaqueca menstrual).
Gatilhos mais comuns — o que desencadeia uma crise:
Identificar os gatilhos individuais é parte essencial do tratamento preventivo. Os mais frequentes são:
- Estresse e ansiedade: o relaxamento após período de tensão intensa ("enxaqueca do fim de semana") é muito comum
- Alterações no padrão de sono: tanto privação quanto excesso de sono podem causar crises
- Jejum prolongado e desidratação: pular refeições reduz a glicose disponível para o cérebro
- Álcool, especialmente vinho tinto e cerveja (ricos em tiramina e sulfitos)
- Cafeína em excesso ou abstinência abrupta de cafeína
- Luz forte, telas e ambientes barulhentos
- Mudanças climáticas e pressão barométrica
- Alimentos específicos: queijos curados, embutidos, glutamato monossódico, aspartame
- Hormônios femininos: variações do estrogênio durante o ciclo menstrual, gravidez ou menopausa
A Hemorragia Subaracnóidea e a Meningite também causam cefaleia intensa que pode ser confundida com enxaqueca — é essencial saber quando a dor de cabeça é uma emergência (ver seção abaixo). O AVC pode manifestar-se com dor de cabeça súbita, especialmente em pacientes com enxaqueca com aura, que têm risco levemente aumentado de AVC isquêmico.
Diagnóstico: como o neurologista identifica a enxaqueca:
O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios da International Headache Society (IHS). Não existe exame de sangue ou imagem que "confirme" enxaqueca — mas exames como tomografia e ressonância magnética são importantes para excluir causas secundárias (tumores, AVCs, malformações vasculares).
O neurologista é o especialista de referência para enxaqueca crônica ou de difícil controle. Clínicos gerais e médicos de família podem manejar casos episódicos simples. Uma teleconsulta é suficiente para a maioria das avaliações de rotina e ajuste de tratamento preventivo.
Tratamento: agudo e preventivo:
O tratamento da enxaqueca tem duas frentes:
Tratamento agudo (abortar a crise):
- Analgésicos como paracetamol e ibuprofeno são eficazes em crises leves a moderadas quando tomados precocemente
- Triptanos (sumatriptano, rizatriptano, zolmitriptano) são o padrão-ouro para crises moderadas a graves — agem diretamente nos receptores de serotonina do trigêmeo
- Anti-inflamatórios como naproxeno e diclofenaco têm boa eficácia
- Antieméticos (metoclopramida, ondansetrona) auxiliam nas náuseas
Tratamento preventivo (reduzir frequência e intensidade): Indicado quando o paciente tem 4 ou mais crises por mês, crises muito incapacitantes ou uso excessivo de analgésicos. As principais opções são:
- Betabloqueadores (propranolol, metoprolol)
- Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina)
- Anticonvulsivantes (topiramato, ácido valproico)
- Bloqueadores dos canais de cálcio (flunarizina)
- Anticorpos monoclonais anti-CGRP (erenumabe, fremanezumabe) — a mais recente geração, altamente eficaz
Medidas não farmacológicas também previnem crises: praticar exercício físico regularmente (mínimo 3x por semana), manter hidratação adequada, manter horário regular de sono e gerenciamento do estresse com técnicas como meditação e biofeedback.
Quando a dor de cabeça é emergência — não espere:
Procure emergência imediatamente se a dor de cabeça:
- É a "pior dor de cabeça da sua vida" (pode indicar Hemorragia Subaracnóidea)
- Surgiu de forma súbita e explosiva ("dor em trovão")
- Acompanha rigidez de nuca, febre e confusão mental (pode ser Meningite)
- Acompanha déficits neurológicos súbitos: fraqueza, alteração de fala, visão dupla (pode ser AVC)
- Piora progressivamente ao longo de dias ou semanas
Quando a teleconsulta resolve:
A teleconsulta com neurologista ou clínico geral é ideal para:
- Diagnóstico inicial de enxaqueca episódica
- Ajuste de tratamento preventivo em pacientes já diagnosticados
- Renovação de receita de triptanos e preventivos
- Orientação sobre manejo de gatilhos e diário de cefaleias
- Avaliação de crises que mudaram de padrão mas não são emergência
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Perguntas frequentes sobre enxaqueca:
A enxaqueca tem cura? Não existe cura definitiva, mas com tratamento adequado é possível reduzir drasticamente a frequência e intensidade das crises, chegando a remissão completa em muitos casos.
Enxaqueca pode virar crônica? Sim. Enxaqueca crônica é definida como 15 ou mais dias de cefaleia por mês, sendo pelo menos 8 com características de enxaqueca. O principal fator de cronificação é o uso excessivo de analgésicos (mais de 10 dias/mês).
Posso usar analgésicos comuns em toda crise? Não é recomendado. O uso frequente de analgésicos (mais de 2-3 vezes por semana) leva à cefaleia por uso excessivo de medicamento — paradoxalmente, a dor piora com o remédio que deveria tratá-la.
Enxaqueca na gravidez — o que fazer? Muitas mulheres têm melhora da enxaqueca no segundo trimestre (devido à estabilização do estrogênio). O tratamento é mais restrito — paracetamol é a opção mais segura; triptanos e muitos preventivos são contraindicados. Consulte sempre um neurologista e seu obstetra.
Diário de cefaleia: por que é importante? Registrar datas, duração, intensidade, gatilhos e medicamentos usados ajuda o médico a identificar padrões e otimizar o tratamento. Existem aplicativos gratuitos específicos para isso (Migraine Buddy, N1-Headache).
Referências bibliográficas:
- Sociedade Brasileira de Cefaleia. Consenso de Enxaqueca. 2024.
- International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders, 3ª edição (ICHD-3). 2018.
- Ashina M. Migraine. N Engl J Med. 2020;383:1866-1876.
- Lipton RB et al. Migraine prevalence, disease burden, and the need for preventive therapy. Neurology. 2007.
- CFM. Resolução CFM nº 2.314/2022 — Telemedicina.
Aviso: Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Em caso de sintomas, procure um profissional de saúde.