Saúde Geral

    Enxaqueca: causas, gatilhos e como prevenir as crises

    DC

    Dr. Carlos Mendes

    Neurologista — CRM 23456

    21 Abr 20268 min de leitura
    Revisado por Dr. Carlos Mendes Neurologista — CRM 23456
    Enxaqueca: causas, gatilhos e como prevenir as crises

    A enxaqueca é uma das condições neurológicas mais incapacitantes do mundo, afetando cerca de 15% da população brasileira — aproximadamente 32 milhões de pessoas. Ao contrário da cefaleia tensional comum, a enxaqueca é uma doença neurológica crônica com crises recorrentes de dor intensa, geralmente unilateral, pulsátil, que pode durar de 4 a 72 horas. Neste artigo, você vai entender as causas, os principais gatilhos, os tratamentos disponíveis e como a telemedicina pode ajudar no seu acompanhamento.

    O que é enxaqueca e por que ela é diferente de uma dor de cabeça comum:

    A enxaqueca não é "apenas uma dor de cabeça forte". É uma disfunção neurológica que envolve ativação anormal do trigêmeo e liberação de neuropeptídeos inflamatórios nos vasos meníngeos. As crises frequentemente incluem náuseas, vômitos, fotofobia (sensibilidade à luz) e fonofobia (sensibilidade a sons), tornando atividades cotidianas impossíveis durante os episódios.

    Aproximadamente 25 a 30% dos pacientes com enxaqueca experimentam aura — fenômenos neurológicos reversíveis que precedem a dor, como distúrbios visuais (escotomas cintilantes), formigamentos, fraqueza ou alterações na fala, com duração de 20 a 60 minutos.

    Causas e mecanismos da enxaqueca:

    A enxaqueca tem forte componente genético — se um dos pais tem a doença, o filho tem 50% de risco; se ambos têm, o risco sobe para 75%. Do ponto de vista fisiopatológico, a enxaqueca envolve hiperexcitabilidade cortical, ativação do sistema trigeminovascular e oscilações nos níveis de serotonina.

    Desequilíbrios hormonais explicam por que a enxaqueca é três vezes mais comum em mulheres: o estrogênio modula os receptores de serotonina e influencia diretamente o limiar de dor do trigêmeo. Muitas mulheres relatam piora das crises nos dias que antecedem a menstruação (enxaqueca menstrual).

    Gatilhos mais comuns — o que desencadeia uma crise:

    Identificar os gatilhos individuais é parte essencial do tratamento preventivo. Os mais frequentes são:

    • Estresse e ansiedade: o relaxamento após período de tensão intensa ("enxaqueca do fim de semana") é muito comum
    • Alterações no padrão de sono: tanto privação quanto excesso de sono podem causar crises
    • Jejum prolongado e desidratação: pular refeições reduz a glicose disponível para o cérebro
    • Álcool, especialmente vinho tinto e cerveja (ricos em tiramina e sulfitos)
    • Cafeína em excesso ou abstinência abrupta de cafeína
    • Luz forte, telas e ambientes barulhentos
    • Mudanças climáticas e pressão barométrica
    • Alimentos específicos: queijos curados, embutidos, glutamato monossódico, aspartame
    • Hormônios femininos: variações do estrogênio durante o ciclo menstrual, gravidez ou menopausa

    A Hemorragia Subaracnóidea e a Meningite também causam cefaleia intensa que pode ser confundida com enxaqueca — é essencial saber quando a dor de cabeça é uma emergência (ver seção abaixo). O AVC pode manifestar-se com dor de cabeça súbita, especialmente em pacientes com enxaqueca com aura, que têm risco levemente aumentado de AVC isquêmico.

    Diagnóstico: como o neurologista identifica a enxaqueca:

    O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios da International Headache Society (IHS). Não existe exame de sangue ou imagem que "confirme" enxaqueca — mas exames como tomografia e ressonância magnética são importantes para excluir causas secundárias (tumores, AVCs, malformações vasculares).

    O neurologista é o especialista de referência para enxaqueca crônica ou de difícil controle. Clínicos gerais e médicos de família podem manejar casos episódicos simples. Uma teleconsulta é suficiente para a maioria das avaliações de rotina e ajuste de tratamento preventivo.

    Tratamento: agudo e preventivo:

    O tratamento da enxaqueca tem duas frentes:

    Tratamento agudo (abortar a crise):

    • Analgésicos como paracetamol e ibuprofeno são eficazes em crises leves a moderadas quando tomados precocemente
    • Triptanos (sumatriptano, rizatriptano, zolmitriptano) são o padrão-ouro para crises moderadas a graves — agem diretamente nos receptores de serotonina do trigêmeo
    • Anti-inflamatórios como naproxeno e diclofenaco têm boa eficácia
    • Antieméticos (metoclopramida, ondansetrona) auxiliam nas náuseas

    Tratamento preventivo (reduzir frequência e intensidade): Indicado quando o paciente tem 4 ou mais crises por mês, crises muito incapacitantes ou uso excessivo de analgésicos. As principais opções são:

    • Betabloqueadores (propranolol, metoprolol)
    • Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina)
    • Anticonvulsivantes (topiramato, ácido valproico)
    • Bloqueadores dos canais de cálcio (flunarizina)
    • Anticorpos monoclonais anti-CGRP (erenumabe, fremanezumabe) — a mais recente geração, altamente eficaz

    Medidas não farmacológicas também previnem crises: praticar exercício físico regularmente (mínimo 3x por semana), manter hidratação adequada, manter horário regular de sono e gerenciamento do estresse com técnicas como meditação e biofeedback.

    Quando a dor de cabeça é emergência — não espere:

    Procure emergência imediatamente se a dor de cabeça:

    • É a "pior dor de cabeça da sua vida" (pode indicar Hemorragia Subaracnóidea)
    • Surgiu de forma súbita e explosiva ("dor em trovão")
    • Acompanha rigidez de nuca, febre e confusão mental (pode ser Meningite)
    • Acompanha déficits neurológicos súbitos: fraqueza, alteração de fala, visão dupla (pode ser AVC)
    • Piora progressivamente ao longo de dias ou semanas

    Quando a teleconsulta resolve:

    A teleconsulta com neurologista ou clínico geral é ideal para:

    • Diagnóstico inicial de enxaqueca episódica
    • Ajuste de tratamento preventivo em pacientes já diagnosticados
    • Renovação de receita de triptanos e preventivos
    • Orientação sobre manejo de gatilhos e diário de cefaleias
    • Avaliação de crises que mudaram de padrão mas não são emergência

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    Perguntas frequentes sobre enxaqueca:

    A enxaqueca tem cura? Não existe cura definitiva, mas com tratamento adequado é possível reduzir drasticamente a frequência e intensidade das crises, chegando a remissão completa em muitos casos.

    Enxaqueca pode virar crônica? Sim. Enxaqueca crônica é definida como 15 ou mais dias de cefaleia por mês, sendo pelo menos 8 com características de enxaqueca. O principal fator de cronificação é o uso excessivo de analgésicos (mais de 10 dias/mês).

    Posso usar analgésicos comuns em toda crise? Não é recomendado. O uso frequente de analgésicos (mais de 2-3 vezes por semana) leva à cefaleia por uso excessivo de medicamento — paradoxalmente, a dor piora com o remédio que deveria tratá-la.

    Enxaqueca na gravidez — o que fazer? Muitas mulheres têm melhora da enxaqueca no segundo trimestre (devido à estabilização do estrogênio). O tratamento é mais restrito — paracetamol é a opção mais segura; triptanos e muitos preventivos são contraindicados. Consulte sempre um neurologista e seu obstetra.

    Diário de cefaleia: por que é importante? Registrar datas, duração, intensidade, gatilhos e medicamentos usados ajuda o médico a identificar padrões e otimizar o tratamento. Existem aplicativos gratuitos específicos para isso (Migraine Buddy, N1-Headache).

    Referências bibliográficas:

    • Sociedade Brasileira de Cefaleia. Consenso de Enxaqueca. 2024.
    • International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders, 3ª edição (ICHD-3). 2018.
    • Ashina M. Migraine. N Engl J Med. 2020;383:1866-1876.
    • Lipton RB et al. Migraine prevalence, disease burden, and the need for preventive therapy. Neurology. 2007.
    • CFM. Resolução CFM nº 2.314/2022 — Telemedicina.

    Aviso: Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Em caso de sintomas, procure um profissional de saúde.

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