Apneia do sono: diagnóstico, riscos e tratamento com CPAP
Dr. Carlos Mendes
Neurologista — CRM 23456
A Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) é um dos distúrbios do sono mais prevalentes e subdiagnosticados do mundo. No Brasil, estima-se que 32% dos adultos — cerca de 50 milhões de pessoas — têm algum grau de apneia do sono, mas a maioria não sabe. A condição causa insônia, sonolência diurna excessiva, prejuízo cognitivo e, nos casos graves, aumenta significativamente o risco de hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e obesidade. Neste artigo, você vai entender como funciona a apneia, como é diagnosticada e quais são os tratamentos disponíveis.
O que é apneia obstrutiva do sono:
A AOS ocorre quando a musculatura da garganta relaxa durante o sono e bloqueia repetidamente a passagem de ar — por 10 segundos ou mais — causando quedas na saturação de oxigênio no sangue. Cada episódio provoca um micro-despertar (que o paciente geralmente não percebe consciente) e fragmente o sono, impedindo as fases reparadoras profundas (sono NREM e REM).
A gravidade é classificada pelo índice de apneia-hipopneia (IAH):
- Leve: 5 a 15 episódios por hora
- Moderada: 15 a 30 episódios por hora
- Grave: mais de 30 episódios por hora
Pacientes com AOS grave podem ter centenas de episódios por noite, sem nunca atingir o sono profundo restaurador.
Como a apneia do sono causa insônia e outros problemas:
A Apneia Obstrutiva do Sono causa insônia — especialmente a insônia de manutenção (acordar várias vezes durante a noite). Mas os efeitos vão muito além:
- Causa obesidade — e a obesidade, por sua vez, agrava a apneia (gordura ao redor da faringe estreita a via aérea) — um ciclo bidirecional
- Causa hipertensão — os episódios de hipóxia noturna ativam o sistema nervoso simpático e elevam a pressão cronicamente
- Causa doenças cardiovasculares — apneia grave não tratada aumenta 2 a 3 vezes o risco de infarto e AVC
- Causa diabetes tipo 2 — a hipóxia intermitente prejudica a sensibilidade à insulina
- Causa déficit cognitivo — dificuldade de concentração, lapsos de memória e irritabilidade
- Causa depressão e ansiedade — o sono fragmentado altera a regulação emocional
A Síndrome das Pernas Inquietas frequentemente coexiste com a AOS e também causa insônia, exacerbando os problemas do sono.
Sinais e sintomas — quando suspeitar de apneia:
O ronco alto e frequente é o sinal mais conhecido, mas não o único. Suspeite de AOS quando houver:
- Ronco intenso, especialmente se irregular ou com pausas
- Relato do parceiro de paradas respiratórias durante o sono ("para de respirar")
- Sonolência diurna excessiva — adormecer em situações inapropriadas (reuniões, dirigindo)
- Acordar com sensação de sufocamento ou coração acelerado
- Cefaleia matinal (pela hipóxia noturna)
- Acordar com a boca seca ou dor de garganta
- Noctúria (urinar várias vezes à noite)
- Irritabilidade, dificuldade de concentração e memória
- Diminuição da libido
Fatores de risco para apneia do sono:
- Obesidade — o principal fator de risco modificável (IMC > 30 aumenta muito o risco)
- Pescoço grosso (> 43 cm em homens, > 38 cm em mulheres)
- Gênero masculino (mulheres têm risco similar após a menopausa)
- Idade (risco aumenta com a idade)
- Estrutura anatômica craniofacial (mandíbula recuada, palato alto, amígdalas grandes)
- Tabagismo e álcool (relaxam ainda mais a musculatura faríngea)
- Histórico familiar de AOS
- Hipotireoidismo não tratado
Diagnóstico: polissonografia e monitoramento domiciliar:
O padrão-ouro para diagnóstico é a polissonografia (PSG) — exame realizado em laboratório de sono que monitora ondas cerebrais, movimentos oculares, tônus muscular, saturação de oxigênio, fluxo aéreo e ronco durante toda a noite.
Para casos de AOS moderada a grave sem comorbidades significativas, a poligrafiarespiratória domiciliar (monitor portátil) é uma alternativa válida e mais acessível, podendo ser solicitada via teleconsulta.
A Medicina do Sono é a especialidade dedicada a esses distúrbios. Neurologistas, pneumologistas e otorrinolaringologistas também manejam a apneia. O diagnóstico pode ser iniciado com clínico geral ou via teleconsulta.
Tratamento da apneia do sono:
CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas): É o tratamento padrão-ouro para AOS moderada a grave. O aparelho envia ar pressurizado através de uma máscara nasal ou facial, mantendo a via aérea aberta durante o sono. Melhora imediatamente a qualidade do sono, reduz a sonolência diurna e os riscos cardiovasculares.
A adesão é o principal desafio — cerca de 30 a 50% dos pacientes abandonam o CPAP. Adaptação gradual, ajuste da máscara e suporte do médico do sono são fundamentais.
Aparelhos intraorais (dispositivos de avanço mandibular): Opção para AOS leve a moderada, especialmente em pacientes que não toleram o CPAP. Reposicionam a mandíbula para frente, ampliando a via aérea.
Tratamento cirúrgico: Em casos selecionados (amígdalas muito grandes, malformações anatômicas, falha do CPAP). Opções incluem uvulopalatofaringoplastia (UPPP), cirurgia ortognática e, mais recentemente, estimulação do nervo hipoglosso.
Medidas comportamentais (sempre combinadas ao tratamento principal):
- Perda de peso — pode curar a apneia leve e reduzir significativamente a moderada/grave
- Evitar álcool e sedativos (especialmente antes de dormir)
- Posicionamento (evitar deitar de costas — apneia posicional)
- Parar de fumar
- Tratar o hipotireoidismo e outras causas secundárias
Teleconsulta e apneia do sono:
A avaliação inicial, solicitação de polissonografia domiciliar, ajuste do CPAP e acompanhamento de rotina podem ser feitos por teleconsulta. A Medicina do Sono online é uma das áreas de maior crescimento na telemedicina.
Consulte especialista em sono pela Pro Life — sem fila, com acesso a polissonografia domiciliar e acompanhamento personalizado do tratamento.
Perguntas frequentes:
Apneia do sono tem cura? Em muitos casos sim — especialmente com perda de peso significativa em pacientes obesos. O CPAP controla os sintomas mas não "cura"; ao retirar o aparelho, os episódios retornam.
Criança pode ter apneia? Sim. Na criança, a causa mais comum são amígdalas e adenoides aumentadas. O tratamento cirúrgico frequentemente é curativo nesse grupo.
Posso dirigir com sonolência por apneia não tratada? Não. A sonolência excessiva aumenta muito o risco de acidentes. Pacientes com AOS grave não tratada devem evitar dirigir e atividades de risco até iniciar tratamento eficaz.
Referências bibliográficas:
- Associação Brasileira do Sono. Consenso Brasileiro de Apneia Obstrutiva do Sono. 2023.
- Peppard PE et al. Increased Prevalence of Sleep-Disordered Breathing in Adults. Am J Epidemiol. 2013.
- AASM. Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea. 2017.
Aviso: Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Em caso de sintomas, procure um profissional de saúde.